Literadura - Erly Welton Ricci
   
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O ASSINALADO

Tu és o louco da imortal loucura,

O louco da loucura mais suprema.

A Terra é sempre a tua negra algema,

Prende-te nela a extrema Desventura.


Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema

E rebente em estrelas de ternura.


Tu és o Poeta, o grande Assinalado

Que povoas o mundo despovoado,

De belezas eternas, pouco a pouco...


Na Natureza prodigiosa e rica

Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
 
Cruz e Souza



Escrito por Erly Welton às 17h38
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O que é fugaz não dói
 
Eu entendo seus medos das coisas intensas
porque eu mesmo os tenho
eu entendo
Sei olhar sua aura e ver a cor rubra da sua defesa defronte os cacos de espelhos
e agora mesmo eu vi você derramando o amargo fel sobre meus lábios porque eles só querem o doce do mel dos seus
e entendi entre linhas escritas com o garment de aço colado eternamente em sua pele que não há o que a faça despir-se
Por isso eu entendo
Mas a dor que isso me causa espreme e faz escoar inutilmente as possibilidades do gozo que virá
Aceito ir adiante
mas entendi que você nunca irá ultrapassar a moita de espinhos que se apresenta ali na frente (sinto que a minha mão nunca lhe dará a segurança de enfrentar a verdadeira fera que nos espreita)
porque você pede a vida - e quer dela somente o riso -
Mal sabe que o amor só pode ser destruído pelo medo.



Escrito por Erly Welton às 17h37
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Última súplica

 

não, Velha Dor de Ontem e de Hoje, não venha desenhar

rugas de pânico na minha fronte

nem a inviabilidade perene de um seguir adiante

com seu vaticínio borbulhoso e ofegante

poupe-me dos brilhos lacrimosos da impotência

de ser um homem-ruína neste instante

e me deixe carregar a pedra da montanha na mochila do sossego

me deixe labutar tranquilamente

no abismo aziago deste universo de dementes

me deixe suar meus líquidos de sal na honestidade da semente

e vá para bem longe da minha miserável perenidade

e da minha mediocridade latente

imploro: me deixe a sós com minha alteridade doente

minha poesia dormente

e a imponência do meu non cense



Escrito por Erly Welton às 18h20
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Escrito por Erly Welton às 16h26
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Vate

 

essa língua minha

linha que sempre esqueço

é a única que desconheço

 

essa minha língua estranha

só fala mesmo o que minto

pois quando meu verbo assanha

não consegue dizer o que sinto

 

não é viva a minha língua

nem morta ou moribunda

ela volta sempre que digo siga

arreia as calças e mostra a funda

 

teimosa em confundir a rima

essa minha língua vagabunda

de impronunciáveis dialetos

áreas amplas, vales profundos

 

signo-língua minha

de consoantes no papel

são vogais de muitas tribos

onde a palavra ainda morreu

 

ruas violentas, arquivos secretos

se insiste e exige a verdade

o resultado é sempre sangrento

ou vate

 

Vate

substantivo de dois gêneros
1    indivíduo que faz vaticínio, predição; profeta, vidente
2    aquele que cria ou escreve poesia; poeta
Etimologia
lat. vátes ou vátis,is 'adivinho, oráculo; agoureiro; profeta, vidente; poeta, vate; mestre (em uma arte)'; ver vat(i)-



Escrito por Erly Welton às 16h13
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Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície inata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
ANDRADE, Carlos Drurmmond de. Poesia completa & prosa. Rio de Janeiro:José Aguilar,1973.
“Procura da poesia” é um dos textos de abertura do livro A rosa do povo, que reúne poemas escritos entre 1943 e 1945, o conjunto formado por esses textos resulta numa das mais belas e profundas reflexões sobre o “fazer poético”, sobre a arte e utilidade da poesia.


Escrito por Erly Welton às 08h59
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Escrito por Erly Welton às 20h23
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Palavras Mágicas

(segundo Nalungiaq/Esquimó)

 

Em tempos ancestrais

quando pessoas & animais viviam na terra,

uma pessoa podia virar um animal se quisesse

e um animal podia virar um ser humano.

Às vezes eram pessoas

e às vezes animais

e não havia diferença.

Todos falavam a mesma língua.

Naquele tempo as palavras eram mágicas.

A mente humana tinha poderes misteriosos.

Uma palavra dita ao acaso

podia ter conseqüências estranhas.

De repente ela ganhava vida

e o que as pessoas queriam que acontecesse, acontecia.

Só o que era preciso era dizer.

Como explicar isso?

As coisas eram assim.


(De "Shaking the Pumpkin", antologia de Jerome Rothenberg

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Fonte: In Knud Rasmussen, The Netsilik Eskimos, Report of the 5th Thule Expedition, Copenhagen, 1931.

Nota: “A xamateca Nalungiaq definia-se como “uma mulher comum”, tendo aprendido o poder das “palavras mágicas” (= poesia) com um tio, também xamã. O comum era não usar a fala ordinária e sim a linguagem dos xamãs, em que todas as coisas & seres eram chamados por nomes diferentes do que eram conhecidos. A consciência esquimó é notável por sua compreensão do processo poético básico”. (Rothenberg, SP, 405)


Texto extraído do blog 'Estúdio Realidade' (link aí do lado) do poeta  Rodrigo Garcia Lopes.

Escrito por Erly Welton às 01h43
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Dos três Eus

 

a poesia

são duas conselheiras

uma em cada lado

nas orelhas

 

a da esquerda não tem

regras

a da direta é mole

intuitiva

 

as duas são definitivas

 

uma negra como a sombra

do desespero

outra albina ácida

meio a meio

 

signos de cores alvas

mitos vários

palavras são o mol

das conselheiras

 

poesia é verbum

ad verbum

nas duas orelhas

 

alma própria

e tridimensional

a poesia é consenso

de três

"eus"



Escrito por Erly Welton às 21h31
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tristes tribos 


 


tigres de pedra e de farinha
tigres vesgos
de fome

no âmbito do tigre
- em nível com o signo
- seu nome
foi e será sempre verbo

um tigre acuado
acua
e some

nem mesmo o cão cérbero
ou a guarda dos
insones