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Recado

 

à remota noção

do cal

e o giro da água

e do fogo

à mulher nua

sob o pedestal

do filho

e do pai

ao vórtice da terra

e do ar  madeira crua

que se planta

e se cultua

- sistêmica lida

à quem em sódio fervilha

escrevo:



Escrito por Erly Welton às 13h20
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Nosso medo

 

Não usa sapatos novos

Nem assoma na janela

O uivo de sete paredes

Nosso medo

 

Ruas mal-iluminadas

Pedra assentada no ombro

O que espreita na lida

O nosso medo

 

Signo de nenhuma estrela

Crucificada no erro

Em vestes corruptíveis

Nosso medo

 

Fala pelos cotovelos

Entre ossos e lama e aço

Cerra olhos e punhos

Nosso medo

 

Não tem a morte no rosto

Não oferece a outra face

Ferro e fogo do verso

O nosso medo

 

Cálice de vinho e veneno

Inverno de mitos sangrentos

Desperta mil vezes em cena

O nosso medo

 

É uma montanha de pedra

Ciência e deuses no Olimpo

Rosário de cal e areia

Nosso medo

 

Punhado de sal na têmpora

O dia que ainda não veio

Barco na névoa espessa

Nosso medo

 

Cova rasa do julgamento

A linha de qual horizonte

Minúcias de cal e areia

Nosso medo

 

São farpas e ferpas na unha

Estrada longa e estreita

Reza pra todos os santos

O nosso medo

 

Ferrugem no pó e nos pelos

O sangue de metal e fungos

A certeza de não sabermos

O nosso medo

 

Em doze motes de cera

Ferro de muros e cercas

Arame em torno do punho

O nosso medo



Escrito por Erly Welton às 15h59
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Minuto


Lá vem você
Se passando por vento
Como se ninguém te visse

Lá vem você dublando pensamento
Como uma praia que se sentisse

Pra perto do risco, do riso, do início, do surf (do transe)
Das ondas das dunas do espanto

Lá onde o calar fala mais alto
E o momento comemora

Com um minuto de silêncio

(Rodrigo Garcia Lopes)



Escrito por Erly Welton às 20h52

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Manifesto

O poeta Jairo Pereira e eu estamos marcando para o próximo mês um manifesto poético em Curitiba. Deverá ser em algum bar no centro da cidade e talvez em mais algum espaço público, com leituras, música e entornadas etílicas. Convido todos os "amigos" e "inimigos" para a noitada dos "sem editora" e garanto: a qualidade é das coisas que são universais, muito além da pessoalidade desses tempos mercadológicos.



Escrito por Erly Welton às 20h48
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O poeta não sai de férias

Ademir Assunção, um dos melhores poetas que conheço, fechou sua ESPELUNCA (BLOG http://zonabranca.blog.uol.com.br/)   e avisa que talvez não volte. É uma grande pena, porque me instigava sempre a me renovar e não permitir que a mediocridade scholar invadisse minha poesia. Tomei a liberdade de tungar de lá o poema:

 

HOMELESS REZANDO DEBAIXO DA MARQUISE

 

não venha Velha Tristeza, não venha

cobrir-me com seu escuro vestido de veludo

azul, não venha

apagar as estrelas que ainda cintilam

no Céu do Abandono, não venha

 

que veneno corre no sangue?

que sol opaco é este

que trinca icebergs com dentes de nicotina?

 

não venha Velha Tristeza, não venha

com suas doses baratas de conhaque

com suas palavras cheias de armadilhas

com seu olhar paralisante, pequeno demônio

girando no centro de uma galáxia catatônica

 

já quebrei todos os espelhos, já soltei

os leopardos, já tentei dormir debaixo

dessas nuvens carregadas

 

não venha Velha Tristeza, estou avisando

não venha

(Ademir Assunção)



Escrito por Erly Welton às 20h40
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O ASSINALADO

Tu és o louco da imortal loucura,

O louco da loucura mais suprema.

A Terra é sempre a tua negra algema,

Prende-te nela a extrema Desventura.


Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema

E rebente em estrelas de ternura.


Tu és o Poeta, o grande Assinalado

Que povoas o mundo despovoado,

De belezas eternas, pouco a pouco...


Na Natureza prodigiosa e rica

Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
 
Cruz e Souza



Escrito por Erly Welton às 17h38
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O que é fugaz não dói
 
Eu entendo seus medos das coisas intensas
porque eu mesmo os tenho
eu entendo
Sei olhar sua aura e ver a cor rubra da sua defesa defronte os cacos de espelhos
e agora mesmo eu vi você derramando o amargo fel sobre meus lábios porque eles só querem o doce do mel dos seus
e entendi entre linhas escritas com o garment de aço colado eternamente em sua pele que não há o que a faça despir-se
Por isso eu entendo
Mas a dor que isso me causa espreme e faz escoar inutilmente as possibilidades do gozo que virá
Aceito ir adiante
mas entendi que você nunca irá ultrapassar a moita de espinhos que se apresenta ali na frente (sinto que a minha mão nunca lhe dará a segurança de enfrentar a verdadeira fera que nos espreita)
porque você pede a vida - e quer dela somente o riso -
Mal sabe que o amor só pode ser destruído pelo medo.



Escrito por Erly Welton às 17h37
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Última súplica

 

não, Velha Dor de Ontem e de Hoje, não venha desenhar

rugas de pânico na minha fronte

nem a inviabilidade perene de um seguir adiante

com seu vaticínio borbulhoso e ofegante

poupe-me dos brilhos lacrimosos da impotência

de ser um homem-ruína neste instante

e me deixe carregar a pedra da montanha na mochila do sossego

me deixe labutar tranquilamente

no abismo aziago deste universo de dementes

me deixe suar meus líquidos de sal na honestidade da semente

e vá para bem longe da minha miserável perenidade

e da minha mediocridade latente

imploro: me deixe a sós com minha alteridade doente

minha poesia dormente

e a imponência do meu non cense



Escrito por Erly Welton às 18h20
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Escrito por Erly Welton às 16h26
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Vate

 

essa língua minha